Ator e estudante de jornalismo, Thomás Antônio Rodrigues Aquino,
26, nasceu em Recife e iniciou no teatro profissional com 20 anos de idade. Ele,
que na infância sempre teve fama de maluquinho e extrovertido, desde jovem já
sabia do seu potencial artístico. Estreou com a peça “O Grande Circo Místico”
em agosto de 2006. Em 2012, completa seis anos de carreira e já acumula três
prêmios em seu currículo.
Quando você percebeu
que realmente tinha talento para interpretar?
Quando eu comecei só sabia decorar texto. Fiz um curso pra
melhorar minha atuação e senti a diferença logo depois em cena. Em 2006 nós
fizemos a primeira temporada de “O Grande Circo Místico” e em 2007 eu recebi
minha primeira crítica como ator onde disseram que um dos pontos mais marcantes
da peça era a cena em que eu morria. Aquela era uma cena que eu odiava porque
era um monólogo enorme e eu tinha medo de fazer. Disseram que meu personagem
foi brilhantemente interpretado e a cena da morte era um dos pontos altos da
peça. Eu fiquei muito feliz e a partir daí eu passei a pensar “poxa, eu tenho
jeito pra isso”.
Como você via o teatro
no início da sua carreira e hoje?
Quando eu entrei não sabia o que era teatro e hoje eu ainda
não sei o que é. Mas hoje eu sei que é fundamental você ler. Teatro é estudo
contínuo. E nós temos muitas escolas, do Ocidente ao Oriente. O teatro japonês
é diferente do russo, que é diferente do francês, que é diferente do alemão, que
é diferente do nosso. Se eu procuro ler sobre cada um deles, com certeza estou
acumulando conhecimento pra mim. E isso é importante na minha formação
artística. Em 2008, eu percebi, quando eu entrei em um projeto onde eu vi que
eu precisava usar meu corpo e representar ao vivo o que não estava em mim,
trazer características, dar vida a essas características e dar isso ao público.
Esse trabalho foi o “Cordel Do Amor Sem Fim”, que está até hoje em cartaz e foi
o que me abriu os olhos pra isso. No sentido de pesquisar referencias, porque nós
trabalhávamos com teatro oriental, com os orixás, com a origem negra, com os
elementos terra, fogo, água e vento. Eu precisei estudar tudo isso pra entender
meu personagem e montá-lo. Hoje eu tenho consciência que eu preciso estudar e
saber cada vez mais o que eu estou fazendo. Não quero que as pessoas me digam ”poxa,
esse ator é demais!”, quero fazê-los sentir a emoção através de mim e da
essência do texto.
Quanto dessa rotina
consome você?
Muito. Quando eu comecei não, porque eu tinha outra
perspectiva de teatro. Hoje não. O teatro me consome muito porque eu tenho um
grupo de teatro e também sou um ator de “freela”, as companhias me chamam, me
dão um papel e eu interpreto. Desde 2009 eu participo do grupo “Quadro de
Cena”, e foi desde então que o teatro me consumiu mais. Porque quando você tem
que dirigir um grupo você tem que ver os editais dos festivais para ver a
possibilidade de incentivo do governo, assinar um projeto, lançar e tentar a
sorte para que esse projeto seja aprovado. Porque são as leis de incentivo dos
projetos daqui, não só os grupos de Recife, mas os grupos do nordeste inteiro.
Não tenho final de semana nem hora pra trabalhar. Já deixei de ir a muitas
festas de amigos, porque geralmente estamos em cartaz e os dias são sexta,
sábado e domingo ou então temos reunião. Não bebo quando estou em temporada,
pra poder cuidar mais da minha voz. Evito beber gelado, comer chocolate, queijo
e faço nebulização em casa. O teatro me toma muito desde a minha entrada no
grupo. Principalmente este ano, onde eu tenho cinco projetos aprovados. Eu
estou em uma peça, preparando outra peça e montando um estudo de pesquisa que
precisa estar pronto até o final do ano. Então eu tenho que dividir o tempo e
conciliar com a faculdade. O que é difícil.
O que te levou a
escolher jornalismo? Porque não Artes Cênicas?
Eu gosto muito de atuar, mas Artes Cênicas, em Recife, é
muito mais voltado para o lado de licenciatura. Então eu prefiro fazer cursos e
me especializar em uma área de atuação. Mas eu sempre me achei um cara
comunicativo. Me formei com 18 e logo depois encontrei com uma amiga minha do
colégio e ela me convidou pra trabalhar na rádio da mãe dela. Eu aceitei, fui e
comecei a fazer um programa com ela. Me apaixonei por rádio. Resumindo: passei
dois anos na rádio Capibaribe, em Cajueiro, logo depois saí porque a demanda do
teatro aumentou e o ambiente me influenciava muito mais. Quando eu fiz
vestibular, fiz para o curso de Rádio e TV, por causa da influência que eu
havia tido. Mas na época não foi formada turma do curso, fui pra Jornalismo e
fui ficando por ficar. Hoje, no 6º período, eu vejo que jornalismo é incrível.
Porque você trabalha dando algo ao expectador, não muito diferente do teatro. O
jornalista dá algo à sociedade, é um formador de opinião e eu gosto disso. Eu
gosto de ajudar, meu instinto é esse.
Você tem três prêmios
como ator. Você esperava?
O primeiro prêmio de teatro que eu ganhei, eu recebi em 2010
com “O Cordel do Amor Sem Fim” em um festival em Natal chamado “Festival
Nacional de Potiguar”. Eu realmente não esperava porque eu não sabia que era um
festival de competição entre os espetáculos e foi muito engraçado porque quando
terminaram a peça me disseram pra ficar para assistir a cerimônia de entrega de
prêmios. Ficamos eu e uma pessoa do grupo representando o “Cordel”. Quando
chegamos lá comentaram que nosso grupo estava concorrendo também. Enquanto
estávamos assistindo anunciaram os concorrentes da categoria “Melhor Ator”. Entre
os concorrentes o rapaz citou meu nome e em seguida anunciou que eu havia ganho
em primeiro lugar. Até hoje eu não consigo descrever a minha reação, fiquei
muito surpreso. Esse foi meu primeiro prêmio. Em 2011, no Festival “Janeiro de
Grandes Espetáculos”, onde participam somente as melhores peças do ano anterior,
já sabíamos que seria uma competição e eu me dediquei muito porque o festival é
uma porta de entrada pra outras oportunidades. Vinham curadores do mundo
inteiro assistir sua peça e ver se ela se encaixa nos festivais deles. Fomos
indicados a nove prêmios dos quais ganhamos seis e um deles foi o meu de
“Melhor Ator Pernambucano” o que me deixou muito feliz. E em 2012, também no
mesmo festival, trabalhei com um projeto de um grupo chamado “Nem Sempre Lila”,
que foi meu primeiro trabalho como ator em um espetáculo infantil e ganhei como
“Melhor Ator Coadjuvante”. Esse foi meu terceiro prêmio.
Você teve algum
treinamento que te ajudou em especial no seu trabalho?
Sim. Um que eu fiz em São Paulo com Tadashi Endo, que era
dançarino de “Butoh” e Carlos Simione que é do Lume, um grupo fundado para
pesquisa da Unicamp. Simione é como referência no teatro físico. Várias pessoas
de várias partes do mundo vão fazer esse curso que acontece anualmente. O curso
se chamava “O Invisível e visível para o ator dançarino”. Foi um curso de dança
e teatro físico. Uma dança diferente do balé, bem complexa. Passei um mês em SP
e pretendo voltar para fazer mais cursos.
Qual conselho você
daria para quem gostaria de seguir com teatro, como ator?
Primeiro comprometimento e responsabilidade. E no teatro a
responsabilidade tem que ser dobrada. Porque as pessoas, de certa forma, pagam
pra ver algo. Claro que a gente não pensa nessa perspectiva sempre, mas existe
essa responsabilidade. Eu já fiz peça com febre, a base de Tylenol, peças que
tinham muito desgaste físico, mas passar aquela arte para o público foi algo
que eu me comprometi a fazer. É importante ir a um fonoaudiólogo, trabalhar
articulação, trabalhar voz. É legal saber cantar ou tocar algum tipo de
instrumento porque isso é um diferencial no meio de trabalho. Você tem que ser
um ator pronto. Precisa saber dançar, cantar, fazer circo, malabares. Procurar
saber a origem do teatro, desde a época grega até o contemporâneo, quem são os
mestres de hoje em dia. Estudar e meter a cara nessas oficinas que existem por
aí.
Seus pais sempre te
apoiaram?
Muito. Meus pais sempre foram muito presentes na minha vida.
Minha mãe no começo achou meio esquisito eu escolher interpretar, mas hoje ela
me apoia muito. Meu pai me apoiou em absolutamente tudo. Se desdobrava pra me dar
suporte. Eu acho que ele vê muito em mim o que ele queria pra ele. Ele é lindo.
Tem o dom de ser da família. Meu pai me inspira pra viver e me inspira a ser
como ele, um bom pai. Porque eu acho que a essência dele é essa.
Élida Tayne